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15/7/2008
Saúde emocional do médico

Sérgio Azman

Muitas vezes vítimas da síndrome de Deus, médicos se deparam com a necessidade de buscar apoio emocional para enfrentar as pressões psicológicas da profissão

“Tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças.” Hipócrates.

A medicina passa por transformações constantes que afetam a qualidade de vida do médico e sua saúde emocional, com forte impacto no exercício da profissão. O desenvolvimento de novos recursos diagnósticos, as parcerias com laboratórios farmacêuticos, os diferentes sistemas de saúde, a presença crescente das megacorporações, o excesso e as más condições de trabalho e a baixa remuneração abalam a estrutura emocional do médico. Além do cenário nebuloso, o médico é invariavelmente exposto a situações de alto grau de estresse, como o contato com pacientes difíceis, com uma doença sem cura, o erro e, muitas vezes, a morte.
O desprestígio e a perda de status geram um sentimento de desvalorização profissional, levando a uma perda de auto-estima e afetando diretamente a forma como os médicos se relacionam com a sociedade e com os pacientes. Um profissional desmotivado geralmente apresenta sintomas de irritabilidade, ansiedade, negativismo e desinteresse, típicos de uma vida profissional tensa e atribulada.
“Na esfera pública o profissional é mal remunerado, sente-se totalmente desmotivado. É um profissional mais distante, impessoal. Resolve o problema do usuário de acordo com o tempo e a demanda, que é muito grande. Com essa sobrecarga de atendimento, ele não consegue conversar normalmente com o paciente, quanto mais ser pessoal, próximo”, afirma Mirko Babic, oftalmologista colaborador do serviço de glaucoma do HCFMUSP.
Segundo Mirko, além de todas essas questões o profissional da saúde ainda tem que lidar com a pressão do erro. “Todos os profissionais, de todas as áreas, têm a preocupação de não errar. Mas a sensação de tragédia que o erro pode causar é muito mais presente na vida médica, não importa qual seja a especialidade. É constante”, diz.
Mas o que fazer para preparar o profissional médico a lidar com questões tão caras ao exercício da sua profissão? Uma medida que tem surtido resultados satisfatórios na melhoria das condições de trabalho e da satisfação profissional é a inclusão da dimensão psicológica na formação do estudante de medicina.

Autoconhecimento e autocontrole

Para lidar com todas as questões que afetam a saúde emocional do médico e, conseqüentemente, seu desempenho profissional, algumas escolas de medicina têm oferecido serviços de apoio psicológico e psiquiátrico, criando uma rede de suporte ao aluno durante sua formação. A criação de um ambiente para a discussão de problemas relacionados aos sentimentos e ao bem-estar do aluno de medicina é fundamental para que o futuro profissional possa lidar com a realidade da prática médica de forma equilibrada.

Para Mirko, durante a faculdade há oportunidades para a exploração da capacidade pessoal, intelectual e manual. Mas quase nunca se fala em inteligência emocional. “Um bom preparo emocional é muito importante. A habilidade de manter um bom relacionamento interpessoal, administrar o estresse, enxergar sua motivação é fundamental para exercer a medicina. Esse é o dia-a-dia do médico: emoção e frustração. A faculdade deve estimular o aluno a ter controle de si próprio, a desenvolver a capacidade de compreender o ponto de vista do outro”, afirma.
O professor adjunto do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Núcleo de Assistência e Pesquisa em Residência Médica (Napreme) da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), Luiz Antonio Nogueira Martins, observa que esses serviços são oferecidos, em sua maioria, em escolas públicas, notadamente em São Paulo, com exceção de algumas faculdades particulares, como a Santa Casa. “Geralmente estão disponíveis onde há mais pesquisa, recursos e interesse institucional”, afirma.
O presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e professor de oftalmologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Hamilton Moreira, concorda que a faculdade deve preparar o lado emocional do estudante para o exercício da medicina, mas não vê essa prática acontecendo de maneira uniforme em todo o país.
“Tenho contato com faculdades em Curitiba, e em nenhuma delas há uma preparação adequada do estudante de medicina para a prática médica e suas implicações emocionais. É preciso ampliar a oferta desse serviço. A realidade do Brasil não é apenas aquela encontrada em locais como São Paulo e Rio de Janeiro”, ressalta.

Sem medo do confronto

O Serviço de Retaguarda Emocional para o Aluno de Medicina (Repam) da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (FCMSCSP) foi criado em 1997 para tratar de questões de natureza psicoemocionais de seus alunos. Apesar do nome, a preocupação em suprir essas necessidades não se limita apenas aos alunos do curso de medicina, mas também a outros futuros profissionais da área da saúde, como fonoaudiólogos e enfermeiros.
Com o objetivo de oferecer um espaço de escuta e compreensão para as questões emocionais que no percurso da formação possam dificultar o bem-estar e o desenvolvimento do aluno como pessoa e futuro profissional, o Repam trabalha com demanda espontânea, ou seja, sem a necessidade de indicação ou encaminhamento. “A participação é espontânea, mesmo porque não haveria sentido a obrigatoriedade, uma vez que o aluno precisa estar disponível e aberto para se confrontar com questões muitas vezes árduas de sua própria personalidade”, afirma Miriam Abduch, mestre e doutora em psicologia clínica pela Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo e psicóloga do Repam.
Atualmente são realizados, em média, 4.028 atendimentos por ano. Os atendimentos não são realizados em período específico, dependendo das necessidades peculiares de cada aluno.
Miriam conta que o número de atendimentos vem crescendo a cada ano. “Temos percebido que os alunos que participam do serviço têm apresentado um crescimento interno, conseguindo enfrentar melhor tanto os problemas acadêmicos quanto os pessoais.”
De modo geral, as principais queixas referem-se a problemas de relacionamento interpessoal (tanto no ambiente acadêmico como fora dele), quadros de transtorno de ansiedade, depressão ou a combinação de ambos. “É importante ressaltar que dispomos também de assistência psiquiátrica, já que algumas condições necessitam também desse tipo de intervenção”, afirma Miriam. E ressalta: “Não é apenas a condição de médico que os leva a procurar suporte emocional, mas sim sua condição de ser humano. É essa consciência que nosso serviço busca alcançar,” diz.

Criado em 1996 na Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM), o Núcleo de Assistência e Pesquisa em Residência Médica (Napreme) é um serviço de apoio psicológico para residentes e pós-graduandos.
Seu coordenador, Luiz Antonio Nogueira Martins, afirma que, mais do que a procura, o importante é a discussão sobre o assunto. “As questões emocionais dos profissionais da área da saúde eram um tabu no Brasil. Hoje, existe uma maior sensibilidade do corpo docente. É comum o professor ligar, pedir orientação sobre como abordar um aluno que está tendo um comportamento estranho. Eles estão mais atentos.”
Nogueira conta que, além do Napreme, desde 2002 a Unifesp possui um convênio muito bem-sucedido com a Rede de Apoio ao Médico com Dependência Química, idealizado com base em experiência de outros países. Esse serviço tem objetivo assistencial, com atendimento de profissionais especialistas e conhecedores das particularidades da profissão. “Estamos tentando ampliar o âmbito de atuação, principalmente de divulgar o tema da saúde do médico, tentar fazer um trabalho para mudar a cultura de que ele (médico) é imune a problemas. A dependência química de médicos, principalmente álcool e medicamentos, é um fenômeno observado no mundo. É importante pensar e discutir esse problema sério, tanto para o profissional quanto para o serviço que presta”, diz.
Segundo ele, o tratamento de médicos com dependência química traz bons resultados, melhores que os encontrados na população em geral. “É difícil cuidar desse problema na população em geral, quando conseguimos 10% já é um sucesso enorme. Com médicos, conseguimos 70% de sucesso. Eles valorizam o tratamento, reconhecem que é importante”, explica.
Luiz Antonio acrescenta que na Unifesp, durante o 5o ano da graduação em medicina, desde 1993 existe a disciplina Estresse Psicológico na Formação Médica e no Exercício Profissional, que pretende ajudar o futuro profissional a lidar com as questões emocionais presentes no exercício da profissão.
“A saúde mental de médicos é cercada de mitos, de medos. Não é um tema fácil. Infelizmente alguns grandes hospitais ainda consideram despesa supérflua. É preciso ter interesse institucional, investimento”, conclui Luiz Antonio.
A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo também conta com um serviço de retaguarda emocional para seus alunos. Desde 1986, o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Grapal) oferece assistência aos alunos da FMUSP e aos médicos residentes do Hospital das Clínicas.
Durante seus mais de 20 anos de atividade, foram realizados aproximadamente 15 mil atendimentos, incluindo consultas psiquiátricas, sessões de psicoterapia, orientação familiar e grupos de reflexão sobre identidade médica e relação médico-paciente.

Falta de afeto: um problema

A prática diária dá condições a esses profissionais de lidar com o fracasso e a frustração. Porém, mais importante do que isso é como eles enfrentarão essas questões, pois isso se remonta a um preparo e amadurecimento interno. “Um bom exemplo é a clássica questão de que, com o tempo, o profissional de saúde “acostuma-se com a morte”; o que pode, à primeira vista, parecer um enfrentamento, pode também na verdade ser o que em psicanálise denomina-se “desafetação”, ou seja, ausência de afeto, de sentimentos. Ora, sentir é qualidade sine qua non para o desenvolvimento da mente, para alcançar o conhecimento e para aperfeiçoar as faculdades humanas”, afirma Miriam.
Por isso, o trabalho de sensibilização do aluno em relação aos seus aspectos psicológicos – motivações para a profissão, idealização do papel de médico – e às suas reações durante o curso de medicina é uma medida essencial. A criação de equipes interdisciplinares nos serviços de saúde que possibilitem a troca de experiências sobre as situações difíceis que se apresentam é outra tarefa prioritária.

           


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