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31/10/2006
Sou cego e pianista profissional



Diz que a cegueira lhe reforçou o ouvido e que, por isso, o ajudou na música. Mas não relaciona o facto de ter perdido a visão com a circunstância de ter vindo a tornar-se pianista. Gosta sobretudo dos barrocos do século XVIII, mas também dos românticos do século XIX – e até da música popular contemporânea, desde que boa. Se o comparam a Ray Charles ou Stevie Wonder, outros pianistas cegos, torce o nariz. Admira-os pelo que conseguiram na música, não necessariamente pela cegueira. Senhores e senhoras, eis outra força da natureza.

Perder a visão foi uma das melhores coisas que me aconteceu na vida”, diz Jorge Gonçalves. Surpreendente? Só para quem não se senta numa tarde de sol a conversar com ele. Cego desde os cinco anos, Jorge tornou-se entretanto pianista profissional. Diz que “A Paixão Segundo São João”, de Johann Sebastian Bach, é a sua peça preferida. Explica que foi a polifonia, tanto quanto a possibilidade de dispensar a partitura, que o fez optar pelo piano em vez da trompa, que a certa altura experimentou. Fala dos tempos de Paris e de como, apesar de tudo, a competitividade entre jovens candidatos a músicos foi muitas vezes intercalada por inesperados momentos de solidariedade – e fala de cada uma dessas coisas com um discurso articulado, um léxico rico, ideias reflectidas para além da forma perfeita. Tem 23 anos e uma licenciatura em piano. Toca em concertos com orquestra, recitais a solo por todo o País, galas de alerta para os problemas dos deficientes. E é invisual. “Como Ray Charles ou Stevie Wonder”, podia dizer-se. “Como muitos outros, músicos ou não”, diz ele.

“Enquanto tive visão, vivia num inferno. Tinha dores fortíssimas nos olhos, sobretudo quando olhava para o sol, e passava imenso tempo internado. Quando perdi a visão, aos cinco anos e tal, pude finalmente livrar-me disso”, explica. Com um glaucoma congénito, patologia que se centra no atrofiamento no nervo óptico, Jorge Gonçalves tem na verdade dois olhos capazes de ver, mas já não consegue que a informação chegue ao cérebro e seja efectivamente processada em visão. A irmã, mais velha quatro anos, sofre do mesmo problema, embora veja alguma coisa – e a coincidência da deficiência nos dois irmãos significa necessariamente que ambos os progenitores são portadores da doença, embora vejam os dois normalmente. “Se a cegueira levou à música, isso já não posso dizer em absoluto”, explica Jorge. “Talvez sim, talvez não. É difícil separar uma coisa da outra, pois todos nós vimos de um determinado con-texto. Como cego, tenho o ouvido mais desenvolvido e isso naturalmente ajudou. Mas a verdade é que foi a minha irmã quem começou por aprender piano e foi ouvindo-a tocar que eu me interessei. E, de qualquer forma, tenho a necessidade básica de exprimir-me como artista, não como deficiente.”

Incentivado pelos pais, uma efermeira e um tenente-coronel com especial apreço pela cultura, Jorge Gonçalves tomou pela primeira vez contacto com o piano aos seis anos. Aos nove, quando vivia com os pais em Tancos (o pai estava destacado na respectiva Base Aérea), tentou entrar para o Conservatório Regional de Tomar. “Não me aceitaram logo. Foram esses os primeiros problemas com que me deparei: não quererem aceitar-me como aluno. Aconteceu em Tomar e aconteceu depois em Coimbra: rejeitavam-me, ouviam-me tocar e, então sim, aceitavam-me”, conta. “Na verdade, não levo a mal. As pessoas têm todas muito medo da diferença. São preconceitos naturais. Mas é preciso lutar contra eles, de qualquer forma.” E os estudos prosseguiram, de Tomar ao Conservatório de Música de Coimbra, deste à École Normale de Musique de Paris Alfred Cartot. Iniciado nos estudos em 1992, Jorge Gonçalves concluiu o Curso Geral em 2001, em regime articulado com o ensino secundário, o Diploma de Ensino em 2002 e o Diploma Superior de Ensino em 2004.

Desde então, é pianista profissional. Realizou recitais em locais tão diversos como o Porto ou o Fundão, Castelo Branco ou Sintra, entre muitos outros. Tocou como solista do Concerto de Grieg em três ocasiões diferentes, nomeadamente com a Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana e com a Banda de Música da Força Aérea Portuguesa. Foi a programas de televisão e à Gala de Abertura do Pirilampo Mágico, em 2005, de cuja campanha foi um dos rostos. “Faço sobretudo concertos. Ou tenho feito concertos, o que é mais bem dito. Sou um prestador de serviços, no fundo, e só espero poder continuar a sê-lo”, explica. “Vivo com dificuldades, mas sobrevivo. Se quisesse ganhar dinheiro, não escolhia esta profissão. Às vezes os meus pais têm de ajudar-me. Mas mantenho-me à tona de água. E faço o que gosto. Nunca me arrependi da opção que fiz.”

Recentemente, e depois de uma experiência a viver sozinho em Lisboa, voltou para Coimbra. Tinha saudades dos pais, dos amigos, das rotinas, dos lugares, dos objectos. Em Paris, chegou a ter a mesma sensação de solidão e abandono – mas nesse caso resistiu. “Estive lá três anos sozinho, o que foi ao mesmo tempo enriquecedor e difícil. Primeiro porque a vida de emigrante é cheia de solidão e de sofrimento. Depois porque o curso era exigente, cheio de competitividade, com um grupo de colegas que incluía alguns dos melhores pianistas do mundo da minha idade. Foi preciso dar um salto qualitativo muito grande”, explica. “Mas acabei por fazer grandes amigos, que permanecem até hoje. Vivia numa residência de músicos e, a certa altura, começámos a ajudar-nos uns aos outros. Para além disso, conheci muitos portugueses.”

Hoje, em Coimbra, ensaia uma média de seis horas por dia, sete dias por semana. E embora goste dos românticos, nomeadamente de Grieg, explica que é Bach o seu favorito. “Passo 60 por cento do meu tempo a tocar Bach. Os outros 40 é que são para os românticos. Gosto muito do Barroco e acho que Bach é o sol da música, o seu centro gravitacional, o homem que trouxe à música uma visão mais elevada, universal. Mais: como ele escreveu sobretudo para órgão, cravo e clavicórdio, os recursos do piano moderno permitem-nos quase reinventar a sua obra, valorizando-a”, diz. Tem sobretudo quatro referências entre os grandes intérpretes do mundo: Sviatoslav Richter, que considera “o manual da interpretação”; Maria João Pires, que diz ter “o som mais bonito”; Glenn Gould, em quem encontra a perfeita “reivenção do ordenamento” e Rosalyne Tureck, que gostou de ver “separar as harmonias”. Em Bach, gosta principalmente das ‘Paixões’, entre elas de São João. A ‘Arte da Fuga’ ou os ‘Concertos de Brandenburgo’ são outras das suas obras predilectas.

“Ninguém toca piano com os olhos, mas com a cabeça. E cabeça todos nós temos”, diz. Se o comparam a Ray Charles ou Stevie Wonder, fica indiferente. Admira-os sobretudo pela música, muito mais do que pela cegueira. Principalmente Ray Charles. “Foi uma pessoa que viveu numa América difícil, cheia de contrariedades, e que conseguiu apesar disso encantar multidões. Mas não me refiro especialmente à cegueira. As pessoas cegas podem fazer as mesmas coisas do que as outras”, explica. E apesar da sua propensão para a música erudita, faz questão de vincar que também a música popular o encanta. Desde que boa, claro. “Aquilo de que gosto é da qualidade. E há música boa em todos os estilos. O Ray Charles, por exemplo, foi de facto um grande músico. Pôs grande humanidade na música. É admirável.”

A PAIXÃO DA TROMPA

Jorge Gonçalves passa metade do dia a ler em Braille, de literatura diversa às partituras de música, e a outra metade a tocar. Em 1995, quando estudava há já três anos, decidiu alargar a sua acção do piano à trompa. “Precisava de ter a noção do canto, porque essa é a essência da música, a expressão mais natural do ser humano sob a forma de música. Os grandes instrumentistas são aqueles que conseguem sublimar a voz humana noutras realidades e a trompa, como outra expressão da voz humana, podia dar-me uma noção do sopro e da respiração, por exemplo”, explica.

“É o meu instrumento preferido, aquele que tem o timbre mais bonito. Ainda hoje, quando ensaio com uma orquestra, peço sempre aos trompistas que toquem um pouco para mim. Mas a questão é que, ao contrário do piano, a trompa exige partitura para se poder tocar numa orquestra. O piano toca-se de cor, mas a trompa não: tem de se ler e tocar ao mesmo tempo. E isso, naturalmente, é uma coisa impossível para um cego”, explica.

Garante, porém, não estar arrependido da opção pelo piano. A polifonia (possibilidade de extrair vários sons em simultâneo, inexistente na trompa) é a grande vantagem

Nome: Jorge Gonçalves
Idade:23 anos
Naturalidade: Coimbra
Profissão: Pianista


Fonte: Correio da Manhã (Portugal)




           


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