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18/6/2008
A saúde cada vez mais perto

A telemedicina ajuda no combate à cegueira, levando diagnóstico e tratamento rápido aos lugares mais remotos. O número de postos de saúde com essa tecnologia no país pode subir para 900

Foi-se o tempo em que era preciso sair do consultório, ir ao laboratório para fazer análises, voltar ao consultório e esperar ser atendido para saber qual era o resultado daquele monte de papéis e fotografias. Hoje, quando não há a possibilidade de fazer os exames na salinha ao lado (o que é raro), os laboratórios se incumbem de enviar os resultados pela internet. E basta um simples telefone ou um e-mail para ficar tranqüilo, ou ainda mais preocupado.

Mesmo que aos nossos olhos esses pequenos avanços pareçam simples demais, na prática médica do dia-a-dia eles fazem uma diferença enorme. Não é difícil imaginar os benefícios que a transmissão instantânea de dados médicos pode trazer num país com as dimensões do Brasil, e onde, nas grandes metrópoles, muitas vezes percorrer sete quilômetros pode representar a perda de mais de 40 minutos. Segundo o oftalmologista e professor livre-docente da Unifesp Paulo Schor, a transmissão de dados e imagens que ocorre entre médico e laboratório é uma pequena amostra daquilo que chamamos de telemedicina. “E a idéia é essa, que a telemedicina seja usada em algumas situações especiais, para exames que possam ser digitalizados ou que são de alto custo”, explica.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a telemedicina compreende a oferta de serviços ligados aos cuidados com a saúde, nos casos em que a distância é um fator crítico. Tais serviços são prestados por profissionais da área da saúde, usando tecnologias de informação e de comunicação para o intercâmbio de informações válidas para diagnósticos, prevenção e tratamento de doenças e para a contínua educação de prestadores de serviços em saúde, assim como para fins de pesquisas e de avaliações.

Já o gerente de projetos do Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP, Adilson Hira, afirma que é possível conceituar telemedicina como o uso da tecnologia da informação e comunicação, baseado em meios para aplicações digitais e interativas voltadas para ações práticas de médicos e de serviços de saúde. “Na prática, isso ocorre com ações médicas baseadas no uso de informação da tecnologia.”

Conteúdo e tecnologia

Na oftalmologia, o uso da telemedicina oferece muitas vantagens. O oftalmologista do Centro Brasileiro de Cirurgia de Olhos, de Goiânia, e coordenador do Núcleo Goiás de Telemedicina, Alexandre Taleb, diz que a oftalmologia, por ser extremamente visual, é uma especialidade que se beneficia muito da telemedicina, e que com certeza ainda tem muito a ganhar. “A teleoftalmologia irá se popularizar à medida que os equipamentos oftalmológicos forem ficando mais baratos”, afirma.

E é com a transmissão de imagens que o oftalmologista pode tirar mais proveito. Schor acredita que se existissem centros de teleoftalmologia espalhados pelo país, grande parte da população teria acesso a diagnóstico correto e a um tratamento mais rápido. “Assim, exames como uma fotografia de retina, por exemplo, poderiam ser feitos sem a necessidade de um oftalmologista no local”, diz.

Mais importante ainda é saber que o uso dessa ferramenta pode melhorar muito a qualidade de saúde da população brasileira como um todo, especialmente na saúde ocular. “As ferramentas digitais podem auxiliar e apoiar a prática médica e assim beneficiar a população. Esses são sistemas de informações que permitem não só realizar exames a distância, mas treinar funcionários e até mesmo compartilhar outras opiniões médicas”, salienta Hira, da USP.

Os já conhecidos prontuários eletrônicos também são uma forma de telemedicina. “É através deles que o histórico do paciente fica armazenado em um banco de dados que pode ser acessado pela internet. É um laudo remoto, que poderá ser acessado a qualquer momento”, acrescenta Hira.

Idéias práticas

Em diversas frentes, especialistas trabalham para tornar a telemedicina uma realidade brasileira que possa, efetivamente, mudar o cotidiano do atendimento oftalmológico no país. “No Brasil existem boas intenções e bons projetos que serão muito úteis no futuro, mas que por enquanto ainda são projetos pontuais”, comenta Schor.

Em 2004, uma tese de doutorado realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveu um centro de diagnóstico virtual que servia a alguns centros de referência em aids. “A idéia era que os pacientes com HIV pudessem realizar exames oftalmológicos no local e também ter um acompanhamento médico sem que precisassem se deslocar entre hospitais. O sistema também permitia uma segunda opinião médica via web e, com isso, acelerava o diagnóstico e o tratamento”, conta Paulo Lopes, coordenador do Setor de Telemedicina da Unifesp. “Nem sempre nesses locais há um oftalmologista de plantão, e o exame virtual permite que haja troca de informações de especialistas de diferentes áreas sobre o mesmo paciente, e até de especialistas da mesma área, para obter o melhor diagnóstico”, acrescenta.

Nesse caso, as imagens dos exames eram anexadas à ficha dos pacientes. Lopes explica que para a obtenção do diagnóstico correto também é preciso que haja uma compreensão do caso como um todo. “O estado de saúde física e mental do paciente é de grande valia para uma melhor análise. E nem só a imagem serve de base suficiente para que médicos possam emitir opiniões”, diz.

Há também que levar em conta a relação médico-paciente. Na opinião de Schor, ela ainda é essencial para o bom andamento de um tratamento.

“A nossa cultura ainda associa muito a confiança e a qualidade do serviço a um bom relacionamento entre pacientes e médicos”, afirma.

Ainda assim, existem boas experiências que demonstram que, futuramente, a telemedicina ultrapassará o uso para transmissão de imagens, armazenamento de dados em prontuários eletrônicos e compartilhamentos de dados pela web.

Um caso de bom aproveitamento da telemedicina é o do oftalmologista Alexandre Taleb. Desde 2005 ele realiza consultas através de um sistema de videoconferência com pacientes do Centro Brasileiro da Visão, de Brasília. “Um profissional treinado acompanha o paciente lá em Brasília enquanto eu realizo a consulta por meio de videoconferência. Os exames são realizados lá e eu checo todos os resultados pela internet. No caso da necessidade de alguma intervenção cirúrgica, eu encaminho o paciente a algum especialista do CBV. Assim não há a necessidade de ninguém se deslocar, o que acaba gerando economia de tempo e de dinheiro muito grande para o paciente”, explica o oftalmologista.

Já na Unifesp, o sistema de videoconferência é utilizado para treinamento dos residentes em oftalmologia. Lopes conta que a cada semestre os residentes da universidade se reúnem em uma videoconferência com residentes da UC Davis – University of California, nos Estados Unidos, para apresentar casos e discutir as formas de tratamento e diagnóstico. “Os encontros têm dado tão certo que outras especialidades da universidade também acabaram aderindo a esse modelo de educação”, afirma.

Ações públicas

O Ministério da Saúde, em parceria com oftalmologistas, tem realizado boas ações na área de telemedicina. Taleb conta que existe um projeto integrado ao Programa Nacional de Saúde da Família que visa capacitar 900 postos de saúde do país com um computador, webcam e um software específico, para que todos pertençam à mesma rede de comunicação e ainda estejam conectados com centros de referência espalhados pelo país. “Essa é uma forma de dar voz a quem está em lugares mais distantes. Mas é importante que os funcionários desses postos recebam treinamento adequado para trabalhar com os novos equipamentos. Com isso, os pacientes poderão realizar exames no próprio local e receber uma segunda opinião médica a distância”, descreve.

Atualmente, 200 postos já contam com os equipamentos, e os resultados têm sido satisfatórios. “Esse projeto permite verificar quais as principais doenças oculares daquela região. E mais, realizar trabalhos de prevenção da cegueira”, completa o especialista.

Levar tratamento até os locais mais remotos do país é sem dúvida um dos maiores desafios da saúde pública brasileira. Hira revela que, além de possibilitar os exames a populações mais distantes, a telemedicina permite a capacitação de médicos que estão fora dos grandes centros. “Nós sabemos que no Brasil o tratamento oftalmológico é desigual. Nem todo mundo consegue receber atendimento, e levar informação a esses profissionais é tão importante quanto propiciar exames. É, na verdade, levar qualidade onde esse paciente estiver”, diz.

Falta mais comunicação entre as redes de saúde pública. Um sistema que possibilite treinamento de procedimentos clínicos, de exames e de diagnóstico. “Em um país deste tamanho, traçar um estudo epidemiológico é evitar que doenças se alastrem e que pessoas continuem ficando cegas por falta de ações preventivas e atendimento médico”, conclui Hira.


Fonte: Marina Almeida



           


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